"The stone that the builder refuse
Will always be the head cornerstone"
Sim, foi por ti que renunciei, que aspirei a terra abrir e lá cair numa vala. Foi por ti que me entalei no purgatório, que fingi aguentar a dor e, de olhar firme (duma firmeza que estranhaste), habituar-me a pairar no sofrimento - estranho hábito, sim. Foi por ti que rasguei os raios de luz e me esqueci na escuridão de mim, de nós.
Eu podia deixar as tuas raízes entranharem-se no meu peito... sim, podia. Podia aceitar a tua voz quente a nadar na minha nuca, deixar as minhas mãos curaram-se do frio, mas por ti gelo.
Porque o corpo espera, desesperado, a chegada do Mundo, se preciso, aguarda desnudo e dilacerado o retorno do outro corpo quente; mas a Mente - a mais traiçoeira - odeia e ignora, pior, esquece.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
sábado, 23 de dezembro de 2006
Suspiro

As folhas subiam, em gesto invertido, após uma queda vertiginosa. O ar a fugir de nós como nós fugiamos de nós próprios. Silêncios de palavras e a paisagem. Escapa um olhar para trás, ao fundo o rio ultrapassado pela estátua como nós nos ultrapassavamos a cada passo, a cada suspiro. Suspirámos pelo Mundo fora e por nós a dentro e pouco andamos, mas corremos a Vida. E quando damos o suspiro final, eis que a árvore estava viva.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Vala de blush

Com a noite chega a Hora da embriaguez dos sonhos pálidos. Como um relógio separado do tempo, deixo-me ir, convenientemente elegante, a cair numa vala de blush. Não borra.
Sonhaste tu - daqueles sonhos insanos de esperança - que roubavas as rosas de todos os jardins, mas chegas aqui, ao meu sonho, vazio de pólen... vazio de ti. O requinte da seda preta não murcha - dizes tu. Mas de ceda preta vivem aqueles que cantam e dançam na tela pequena, eu vivo de ti. Quase morro à sede pelos abraços pequenos e tímidos, - nada de mãos no pescoço ou gestos fogosos, afinal sou sensível e posso magoar-me - assim distantes, assim suficientes.
Todas as noites me visitas. Admiras-me as pétalas murchas, não lhes tocas - são frágeis demais - ama-las de longe, sentado, quieto, a dormir. Por todos os sonhos, de todas as vidas, vejo sempre a mesma imagem: eu, pequenina a tremer de frio, e tu, grande e solto, a fingir que tens calor.
Todas as noites me visitas. Admiras-me as pétalas murchas, não lhes tocas - são frágeis demais - ama-las de longe, sentado, quieto, a dormir. Por todos os sonhos, de todas as vidas, vejo sempre a mesma imagem: eu, pequenina a tremer de frio, e tu, grande e solto, a fingir que tens calor.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Aterragem
Ainda não descolou.
Mando-o embora já, antes de descolar, para depois dizer que assim o quis.
Fecho os olhos e sei - sei cada vez mais - que mais que o avião, temo o regresso. A desilusão de não me encontrar. Será aguda a dor da vida ausente? Mais aguda que esta que morre pelas presenças adormecidas? Não sei e sei-o bem.
Dir-te-ei que tens razão uma última vez. Di-lo-ei com um sorriso encantador. Mostrar-te-ei uma paz paralítica, enquanto guardo em mim - fechado a cadeado - o Inferno, e na chuva do desejo vais acreditar. Vais descolar então, em Paz.
Momentaneamente teremos ambos abraçado a Paz. Perguntar-te-ás como o consegui, finalmente. O susto responder-te-á: "Tu com os olhos cegos e Ela... pelas mãos".
Mando-o embora já, antes de descolar, para depois dizer que assim o quis.
Fecho os olhos e sei - sei cada vez mais - que mais que o avião, temo o regresso. A desilusão de não me encontrar. Será aguda a dor da vida ausente? Mais aguda que esta que morre pelas presenças adormecidas? Não sei e sei-o bem.
Dir-te-ei que tens razão uma última vez. Di-lo-ei com um sorriso encantador. Mostrar-te-ei uma paz paralítica, enquanto guardo em mim - fechado a cadeado - o Inferno, e na chuva do desejo vais acreditar. Vais descolar então, em Paz.
Momentaneamente teremos ambos abraçado a Paz. Perguntar-te-ás como o consegui, finalmente. O susto responder-te-á: "Tu com os olhos cegos e Ela... pelas mãos".
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
Cantos surdos
É quando o pesadelo acaba que a realidade me esmaga.
Procuro astuta o assassino da alma - agora podre.
Um segundo de queda e tudo muda.
Esbarra nos cantos a violência da pólvora.
Os ouvidos surdos deparam-se com o vazio de som, de dor, de pensamento.
O assassino foge e eu fico, como sempre,
Procuro astuta o assassino da alma - agora podre.
Um segundo de queda e tudo muda.
Esbarra nos cantos a violência da pólvora.
Os ouvidos surdos deparam-se com o vazio de som, de dor, de pensamento.
O assassino foge e eu fico, como sempre,
quebrada.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
A tal paz...
Partido está. Existiu? Não.
Arrasta a cadeira. Com ela as multidões. Diárias? Sim. Importantes? Não sei.
Confissões de quem não diz nada e nada quer dizer, porque o Nada diz tudo, pelo menos tudo o que não deve ser dito.
A cadeira, suja de desgosto, range as lágrimas na madeira vivida. Viveu muito - mede os dias pela intensidade da dor -, foram séculos que escorreram. Às vezes, sente a raiva querer romper as artérias, ferir a dor e ultrapassá-la - "mas eu não vou deixar, não"(como na música) - e aquieta-se.
A paciência ser-te-á recompensada pequena - diz Ela.
Não mereces viver - diz Ele.
Não mereces é viver como vives... - diz uma Ela ainda mais importante.
E eu? Quero paz.
SÓ...
Arrasta a cadeira. Com ela as multidões. Diárias? Sim. Importantes? Não sei.
Confissões de quem não diz nada e nada quer dizer, porque o Nada diz tudo, pelo menos tudo o que não deve ser dito.
A cadeira, suja de desgosto, range as lágrimas na madeira vivida. Viveu muito - mede os dias pela intensidade da dor -, foram séculos que escorreram. Às vezes, sente a raiva querer romper as artérias, ferir a dor e ultrapassá-la - "mas eu não vou deixar, não"(como na música) - e aquieta-se.
A paciência ser-te-á recompensada pequena - diz Ela.
Não mereces viver - diz Ele.
Não mereces é viver como vives... - diz uma Ela ainda mais importante.
E eu? Quero paz.
SÓ...
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